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DOS PRIMATAS AO HOMEM MODERNO: COMO A PERCEPÇÃO DA FÉ MUDOU EM 4,5 MILHÕES DE ANOS
Publicado por Éter em 11 de Maio de 2020
Como surgiram as religiões?
Essa é uma pergunta que muitos especialistas ao longo da história tentam responder e para isso não faltam hipóteses. Para compreender a formação das religiões como conhecemos hoje, é preciso fazer um retorno histórico para alguns milhares de anos atrás, com o surgimento dos primeiros hominídeos e até mesmo antes disso, com os nossos parentes primatas.
A religião surge quando os cérebros dos nossos parentes distantes começam a manifestar as primeiras emoções, como agressão, medo, tristeza e felicidade. Segundo Jonathan Turner, sociólogo e autor do livro “A Emergência e Evolução da Religião”, o processo de melhoramento da região subcortical que permitiu aos hominídeos a capacidade de sentir um leque mais amplo de emoções data 4,5 milhões de anos atrás, quando surgiu o primeiro Australopitecos (gênero de hominídeo extinto, próximo ao gênero Homo, mas ainda parecido com os chimpanzés).
A empatia e a solidariedade foram fundamentais na construção do sentimento de pertencimento e na formação de grupos sociais que favoreciam as interações sociais positiva, garantiam a integridade, a sobrevivência e reprodução de seus membros.
Para que esses animais conseguissem sobreviver, podemos entender pela perspectiva da seleção natural das espécies de Charles Darwin que os grupos sociais eram essenciais.
Quando essas comunidades primitivas conseguiram garantir certa estabilidade social, estando melhor alimentadas e seguras, os rituais apareceram. Nesse contexto, entende-se por rituais alguns hábitos repetidos de forma e duração semelhantes com determinada frequência, por exemplo, a forma de se alimentarem e conduzirem as refeições.
Uma vez que os rituais se estabeleceram, o surgimento das religiões não estava longe. A empatia fazia com que os primeiros seres humanos espelhassem suas emoções em membro dos seus grupos e até em eventos da natureza. Desse ponto à exaltação ritualística dos eventos naturais foi um pequeno passo.
Se isso parece muito distante para nós, basta pensar nas tantas vezes que percebemos rostos em formações de nuvens, ou podemos garantir que uma mancha qualquer tem exatamente a forma de um animalzinho sorrindo, ou até mesmo que uma pintura nos encara com olhar de julgamento. Isso tudo não passa da nossa tendência a enxergar objetos inanimados como se fossem humanos possuidores de alma e consciência.
A religião, além de tudo, foi fundamental para o estreitamento de laços sociais entre grupos; era necessário que essas pessoas que compartilhavam território e comida, também compartilhassem valores morais que os guiasse. O fator ritualístico e espiritual em concordância da comunidade, proporciona coesão e uma estrutura hierárquica. Era, e ainda é, a religião uma forma de coerção, um tipo de guia de como viver da maneira daquele grupo.
Muitos dos hábitos e mitos transmitidos oralmente pelos povos primitivos se perderam no tempo, principalmente se nos referimos à sociedades não letradas. É inevitável cruzar com os caminhos da arte e da arqueologia no processo de descobrimento das religiões. É tão comum vermos objetos e resquícios pré históricos em museus como peça de arte que chegamos a esquecer que os homens do paleolítico superior não estavam realmente preocupados em fazer suas cavernas serem as mais bonitas e bem decoradas da região. Além de um tipo de comunicação simbólica para os membros do grupo e para as futuras gerações ou uma forma de imprimir identidade ao local, as pinturas rupestres eram carregadas de caráter místico, como se ao pintar um homem derrotando um bisão, aquilo pudesse de fato acontecer na vida real.
São exemplos de pinturas rupestres, as cavernas de Grotte Chauvet, na França - ocupada por humanos em dois diferentes períodos (30.000 a 32.000 anos AP e 25.000 a 27.000 anos AP). De Altamira, na Espanha - (12.000 a.C. - 16 500 a.C). e as brasileiras do Parque Nacional Serra da Capivara no Piauí, apresentando vestígios de 50.000 anos, os mais antigos registros na América.
Muitos grupos indígenas se especializaram em esculpir diversos materiais ao criarem máscaras representando as entidades em que acreditavam. E essa ideia vai muito além do “representar”. A máscara e vestimentas eram carregadas de profundo caráter mágico, capaz de transformar o indivíduo que as utilizava na personificação da entidade esculpida.
O cenário é o mesmo na produção de carrancas, muito comuns em culturas africanas e de totens, característicos dos nativos da América do Norte. Aqueles pedaços simples de madeira se tornavam amuletos contra toda e qualquer entidade que pudesse vagar pela região. E podemos continuar com os exemplos: grupos orientais, principalmente chineses, se especializaram em pintar paisagens naturais por atrelarem a elas a possibilidade de elevação espiritual por meio de processos de meditação.
Os egípcios com hieróglifos, pinturas e processos de mumificação, tinham profunda crença que esses seriam os meios para chegar a uma vida plena no pós morte, e os gregos e romanos, apesar de serem até hoje exemplos para a arte bela e perfeita, pensavam em atingir a perfeição primeiro como uma homenagem aos seus deuses.
A religião teve sempre papel importante na formação social e cultural dos grupos, e conseguimos analisar isso pelos grandes esforços e gastos empreendidos na construção de catedrais, templos, tumbas, catcumbas, pirâmides e outros tantos edifícios que parecem não garantir em nada a simples sobrevivência do ser humano mas mesmo assim, foram construídos por todo mundo e pelas mais diversas sociedades.
Se a religião foi tão importante ao longo da história, por que agora ela começa a “deixar de ser”?
Segundo pesquisa do instituto Gallup International, que em 2012 entrevistou mais de 50 mil pessoas em 57 países, o número de indivíduos que se dizem religiosos caiu de 77% para 68% entre 2005 e 2011, enquanto aqueles que se identificaram como ateus subiram 3%, elevando a 13% a proporção dessa parcela.
No Brasil, essa parcela de não religiosidade cresceu 580% entre 1980 e 2010 – saindo de pouco mais de dois milhões para mais de 15 milhões de pessoas, ou cerca de 8% da população em 2010 segundo o Censo IBGE/2010. Em 2020, cerca de 10% dos brasileiros declaram não ter religião, segundo o datafolha. Se os declarados “sem religião” fossem considerados como uma crença, essa seria a terceira maior do país, ficando atrás somente dos católicos e evangélicos.
Contudo, de acordo com o relatório Understanding Unbelief divulgado em 2019 pela Universidade de Kent, isso não significa que ateus e agnósticos não acreditem em eventos sobrenaturais ou métodos sem embasamento científico, como a astrologia. No Brasil, pelo menos um quarto das pessoas sem religião acreditam em reencarnação, quase um terço na existência de vida após a morte e apenas 73% dos ateus e agnósticos brasileiros disseram não se considerar de nenhuma religião.
Uma das explicações possíveis para o crescente número de ateus, agnósticos e sem religião pelo mundo é o aumento da segurança e estabilidade econômica, política e social em países mais desenvolvidos.
O capitalismo, o acesso à tecnologia e à educação, também parecem ter relação com a diminuição da religiosidade em algumas populações como pontua Phil Zuckerman, professor de sociologia e estudos seculares no Pitzer College, na Califórnia, e autor de Living the Secular Life ("Vivendo uma vida secular", em tradução livre).
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